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O Milagre de Fátima





Eu não estive lá, ouço muita gente dizer acredito ou não acredito, todos têm o direito a ter a sua própria visão das coisas. Mas hoje decidi falar eu mesma sobre o tal milagre de Fátima. 


Nasci e cresci em Fátima, sempre acompanhada por uma família bastante religiosa, mas eu... eu deixei de ser religiosa há alguns anos atrás. Mas em criança quis ser freira, missionária, tudo o que mais queria era estar ligada a religião, até que percebi que a religião é dos homens, e eu quero mesmo é estar ligada aos deuses.


Tive a sorte de nascer bisneta de duas pessoas incríveis, que faleceram já eu tinha 13 anos. Por isso lembro me bem deles. Sempre adorei a minha bisavó, não querendo dizer que não amava todas as minhas avós, esta era especial para mim. 


Ela contava me histórias da vida debaixo da chaminé da lareira, ao calor da fogueira e com barulho da chuva ou o cantar dos rouxinóis (pássaros que ela mais adorava).


Embora não seja religiosa, sempre guardei na memória o que eles os dois me contaram sobre Fátima, e sempre gosto de dar um saltinho ao santuário em determinadas horas, para sentir a paz. Quando era estudante, ia muito cedo para escola em Cova d’Iria e por isso tinha tempo, e passava o meu tempo ali pelo santuário, onde me sentia em casa.


A minha avó contava que a sua mãe costumava ir até a casa da mãe da Lúcia a fim de usar o tear com ela e fazer mantas. Tal como a mãe da Lúcia, as minhas bisa e trisavó eram também tecedeiras e faziam mantas no tear. Certo dia conta a minha avó Amélia que tinha ido com a Lúcia cuidar do gado para os Valinhos, e que lhe quis parecer que ia chover, pois tinham visto uns relâmpagos. A minha avó ainda disse ter visto depois dos relâmpagos, umas pequenas bolas de luz como estrelas chegadas do céu que depois desapareceram. Com medo foram pra casa e nada mais aconteceu. 


Mais tarde trabalhei numa loja em Fátima e nos tempos livres andei a ler o livro da Lúcia, qual não e o meu espanto que ela relata esse mesmo acontecimento no livro, e fala de uma Amélia, o que me leva a concluir que seria a minha avó. (ambas eram do mesmo ano tinham uns 9 anos nessa altura).


Quanto ao meu bisavô, ele tinha 10 anos a mais, já era militar em 1917, e foi ele um dos militares que fizeram cordão de protecção no dia do milagre.


Sempre que o meu avô contava o que viveu, emocionava se e deixava cair uma pequena lágrima de emoção. 


Ele diz que naquele dia chovia torrencialmente, haviam poças de água por todo lado, muita lama, um cenário de inverno chuvoso. De repente parou de chover. Choveram flores brancas e ele dizia que cheiravam a perfume, as pessoas levantavam os braços para as apanhar, mas desapareciam, mal se aproximavam das mãos.


Uma coisa que não sei se ouvi a mais alguém, ele contava que quando olhava para as outras pessoas, via-se a si mesmo, como se fossem espelhos. O sol de repente pareciam estar a cair, depois girou, toda a gente teve medo, mas pareciam hipnotizados pois o que se sentia era algo inexplicável, mesmo com tanto medo.


Por fim o chão estava completamente seco, e ele não entendeu como tinha sido possível.


Notava a alegria com que ele me contava isto e sei perfeitamente o que ele estava a sentir.


Nunca fui muito de falar sobre algo que eu e mais duas pessoas presenciamos no mesmo local. Mas hoje falo. 


Tanto me faz que acreditem ou não, eu mesma quando ouço outros falarem que viram isto ou aquilo, fico na dúvida, e eu também já vi algo que não consigo explicar. Basicamente foram as luzes que a minha bisavó me contou ter visto, essa luz apareceu 6 vezes durante um determinado tempo, enquanto eu estava em oração com o meu pai e uma prima minha em Fátima. Ela vinha e ia e voltava a vir noutro sitio perto do anterior, sempre que desaparecia os objectos onde esteve ficaram mais luminosos, e por fim entrou dentro do sacrário. Entre o espaço de tempo em que ia e voltava, eu e minha prima, víamos um idoso que descia do altar na nossa direcção, já o meu pai, nunca o conseguiu ver.


O mais fascinante que tudo isto teve, não foi ver uma luz tão brilhante e com volume mas que não cegava os olhos, foi mesmo sentir uma alegria interior, um contacto com algo que não se consegue explicar ou entender, mesmo sendo por nós vivenciado.


É certo que muito do que aconteceu foi aproveitado pela igreja dos homens e por homens para lucrarem monetariamente. Mas isso não anula que 70 mil pessoas tenham visto algo ali acontecer só num dia, e mais as outras que foram vendo ao longo do tempo, eu fui uma das contempladas. 


O que é, não sei explicar, mas todos os idosos que fui ouvindo em pequena e que lá estiveram, todos eles contavam algo idêntico, uns viram mais uma cor do sol, ou mais uma imagem, outros viram menos isto ou aquilo, mas todos viram a chuva e as flores, e o sol a girar, e acima de tudo, todos falavam nisso com uma enorme emoção.


Este é o meu milagre de Fátima.

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